Costuma ficar bem ali na área da recepção. É o tradicional quadrinho em que estão expressos os valores, a visão e a missão da empresa.

Você já deve ter visto muitos deles, impressos em papel nobre e elegantemente emoldurados. No entanto, deve saber que poucas pessoas, mesmo dentro das corporações, compreendem e seguem esses princípios.

Em outro artigo, tratei de “valores”. Neste, quero analisar o tema “visão”, o mais mutável desses três pilares. Dele depende a identificação do lugar ocupado e o mapeamento do caminho a ser trilhado.

Obviamente, existem muitas teses e literaturas sobre a questão. Pretendo, no entanto, apresentar aqui meu conceito de visão, aquele que definiu minhas atitudes durante a vida.

Quero explorar a palavra em suas diversas acepções. Afinal, o gestor é, antes de tudo, um agente de múltiplas visões, especialmente quando empreende, inova e constitui mercados.

Primeiramente, é preciso frisar que só transforma quem tem visão apurada. Só aponta a direção quem sabe interpretar cenários.

No sentido físico, a visão é um sentido muito particular, que ocupa vastas áreas do cérebro. Nossos olhos são como câmeras que capturam a realidade iluminada.

O processo perceptivo é iniciado na retina, um tela viva que organiza o mosaico de imagens, codificando-as para o cérebro por meio dos impulsos elétricos enviados pelo nervo ótico.

O cérebro é a grande “sala” de controle, análise e interpretação dos sinais recebidos. É lá que determinamos distâncias, movimentos, formas, cores e texturas. Nesse magnífico computador orgânico, as coisas vistas efetivamente adquirem sentido.

A visão, porém, transcende o simples enxergar. Critérios subjetivos alteram o entendimento de cada imagem processada. Por isso, um mesmo evento pode ser descrito de formas diferentes, de acordo com a interpretação de cada testemunha.

Os esquimós veem muitos tipos de branco. Os beduínos enxergam texturas sutis na areia do deserto. O navegador experiente sabe distinguir um mar do outro e escolher sua rota.

Olhos perfeitos não equivalem a uma visão perfeita. Ver bem é, mais que tudo, decifrar o código da imagem. E até cegos podem “ver” com clareza, como o escritor Jorge Luis Borges e os cantores Stevie Wonder e Ray Charles.

É comum escutarmos o dito popular: “o que os olhos não veem o coração não sente”. Melhor seria: “o que o cérebro não percebe o coração não sente”.

A “visão” é, na verdade, muitas vezes, constituída de uma reunião de impressões sensoriais diversas, como o olfato, o tato e o paladar.

É comum sentirmos um perfume e logo nos lembrarmos de algo ou de alguém. Quando sinto o cheiro da laranja, recordo-me de minha carinhosa avó, descascando a fruta para os netos, em nossa casa de Arujá.

Um sabor específico me remete aos tempos de criança, mais especificamente ao restaurante Salada Record, na Rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro, onde nasci e passei meus primeiros anos de descobertas.

Apresentados esses conceitos, vale dizer que muitos empreendedores e gestores são capazes de combinar os sentidos e, assim, apurar tremendamente a visão. E aqui falo de visão em seu sentido mais integral e holístico.

Essas mentes brilhantes, treinadas para decifrar o mundo, são capazes de ver o que ninguém mais enxerga.

Em suas visões mentais, eles detectam problemas ocultos e descobrem oportunidades espetaculares.

Olhe atentamente para o cinema da história e você verá que algumas pessoas foram capazes de construir fábricas, desenvolver negócios e até mesmo erguer cidades a partir do pó e da pedra.

Esses pioneiros, muitas vezes, não contavam com qualquer suporte financeiro. Obtiveram o sucesso porque tiveram coragem e acreditaram naquilo que um dia enxergaram, ou seja, em suas visões.

Não quero e não vou, neste texto, apresentar feitos e personagens de visão. Você já conhece muitos deles, como Lumière, Edison, Ford, Morita, Berners-Lee, Jobs e Gates.

Retomo, portanto, a minha reflexão. Desde pequeno, eu olhava as imagens do passado com interesse e espanto. Depois, pensava se as coisas do presente me causariam a mesma impressão no futuro.

Era um exercício lúdico, de criança fantasiosa. Quando questionado sobre o meu perfil, meu pai costumava dizer: “o Marcelo enxerga a porta redonda”.

Ouvi essa frase muitas vezes, sem compreender bem a metáfora. Hoje, sei que nunca vi as coisas exatamente como são, mas no que podiam se transformar.

Sempre me senti motivado a mudar o realizado, a alterar originalidades, a testar novas formas, modelos e estruturas. Era o que fazia, por exemplo, com minhas motocicletas, frequentemente desmontadas e remontadas.

Criar foi-me sempre uma grande diversão, convertida numa espécie de vício. Antes de qualquer ação efetiva, entretanto, sempre houve uma visão, uma pré-formatação da obra futura.

O acabado, para mim, sempre indicou a exigência de uma alteração, de um aperfeiçoamento. Hoje, por meio do estudo do empreendedorismo e da gestão, percebo que esse é um traço comum à maior parte dos homens e mulheres que desenvolveram produtos, formas de negociação, ferramentas de comunicação e teorias para uma convivência pacífica e colaborativa entre os humanos.

No meu caso, a busca pelo novo sempre foi a maior de todas as motivações. Não tenho pressa, mas admito que sou ansioso. E acredito que não há contradição nisso.

Quando enxergo uma oportunidade, procuro não estabelecer prazos para o término do projeto. Gosto da jornada de aprendizado, de acordar cedo para tirar mais uma pedra do caminho.

Normalmente, encaro desafios complexos, convivendo com as mais variadas limitações. Se a visão se mantém, no entanto, sigo em frente, com persistência.

Há quem me rotule como obstinado, incansável e, até mesmo, teimoso. Este último adjetivo é negativo, mas devo confessar que me define em alguns momentos e situações. Ora, que realizador não teima, aqui e ali, em suas experiências para empreender e gerir?

Considero que teimosia é a compulsão para se bater na mesma tecla, insistir no mesmo lugar, repetir uma tática ou reproduzir um erro esperando um resultado diferente.

Se me vejo teimoso, portanto, procuro escapar desse padrão de comportamento. Reflito sobre o caminho percorrido, analiso eventuais equívocos, efetuo correções e busco uma solução alternativa. Assim, troco a teimosia pela persistência.

Como gosto de mudar, as coisas prontas não me atraem muito. Agrada-me alterar a paisagem. É assim que executo minha ginástica visual.

A visão do empreendedor, afinal, é sempre aquela da busca de demandas não atendidas.

É girar a cabeça 360º., botar sintonia fina no sinal 3D e determinar se as pessoas precisam de algo que tenho ou terei a oferecer. Depois, é necessário visualizar como convencê-las a pagar por esse bem ou serviço.

O gestor de um negócio estabelecido, no entanto, precisa muitas vezes de foco, de visão microscópica. Ele precisa enxergar, por exemplo, por que um processo está lento demais ou por que uma estratégia de marketing não está funcionando. Esse profissional olha o detalhe e administra a pequena mudança que gera grandes resultados.

Procuro olhar para todos os lados. Essa é a minha visão empreendedora, aquela que vasculha os territórios do mercado. Mas também me detenho em regiões que passam despercebidas pelo olhar convencional. É ali, por exemplo, que percebo a chance de reorganizar um departamento ou melhorar a performance de um colaborador.

Durante décadas, procurei aprimorar minha visão do universo dos negócios. Hoje, considero empreendedores aqueles que veem além de seus olhos, que são capazes de perceber necessidades coletivas e gerar valor futuro a partir da transformação de matérias primas ou da oferta de serviços.

Verdadeiros gestores são aqueles profissionais habilitados a enxergar os mecanismos invisíveis de cada processo e capazes de constituir e administrar modelos sustentáveis de negócio. Nessas empresas, se faz mais com menos, a produtividade não sabota a felicidade e o conhecimento é um ativo intangível em construção permanente.

Procuro, portanto, olhar menos os feitos e mais as intenções. Ter visão nos negócios é enxergar a transformação pronta à frente. É reconhecer uma capacidade de realização e mentalizar o futuro. É gostar de criar. É ter paixão por fazer. É querer pra valer.

Veja, olhe e enxergue além das imagens. Projete-se na cena, como agente ativo da mudança. O amanhã é você quem faz. E esta é a real VISÃO que tantos almejam no mundo dos negócios.

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