“O mar virou.” Você já ouviu esta expressão? Muito comum entre os caiçaras, significa que findou a calmaria e será preciso ficar atento ao que virá.

Fascinante e belo, o mar é volúvel. No cotidiano, é alterado pela ação gravitacional da Lua e também do Sol. São as marés, que oscilam em ciclos de 12 horas e 25 minutos.

O mar também pode mudar se influenciado por súbitas alterações climáticas, como no caso de ciclones e furacões. O movimento que mais assusta é o do tsunami, em geral provocado por um sismo ou erupção vulcânica.

Os mais experientes costumam ler os sinais e prever uma alteração súbita no nível e no comportamento do mar. No caso do maremoto, por exemplo, um grande recuo da água precede a onda devastadora.

Não é diferente na vida de um indivíduo ou de uma empresa. O mar pode ser baixo e calmo. Em seguida, pode se tornar alto e revolto.

Compreender essas variações é, muitas vezes, o que determina o sucesso de uma pessoa ou empresa, não importa o que faça e que negócio desenvolva.

O conhecimento frequentemente nos oferece ferramentas para prever ciclos, ou seja, para saber quando algo vai subir e quando algo vai descer. Isso vale para marés, humores e atividades econômicas.

Da mesma forma, o empreendedor experiente identifica o aparecimento de uma oportunidade e prevê a virada num mercado, momento em que o modelo de negócio exige reinvenção.

Se imaginarmos a empresa como uma embarcação, poderemos dividir os tripulantes em três categorias básicas: experientes, traumatizados e marinheiros de primeira viagem.

Dos experientes, já tratamos. Os traumatizados não souberam assimilar as lições oferecidas pela mudança. Lembram-se somente do incômodo, do sofrimento e das perdas. Muitas vezes, paralisam-se, temerosos de reviver o infortúnio.

Os marinheiros de primeira viagem muitas vezes pecam pelo excesso de coragem ou pelo excesso de prudência. Sem balizas, não são capazes de dimensionar a onda da mudança e nem como manter o barco no rumo certo.

Aproveitando as marés

Hoje, os cientistas já sabem até mesmo como gerar energia a partir das marés. Nesse caso, o fenômeno não assusta. Ao contrário, serve como propulsor da mudança controlada.

É o que ocorre, por exemplo, com aqueles que hoje percebem o esgotamento dos recursos naturais. Detectam a mudança, preveem a crise, mas aproveitam para lançar produtos diferenciados, recicláveis e menos poluentes.

Em minha trajetória, vi a maré subir e descer muitas vezes. Em alguns momentos, a água foi embora do porto e a embarcação-empresa quase perdeu a capacidade de flutuar.

Aprendi a suportar pressões e a conviver com a adversidade. A saída foi exercitar o raciocínio, imaginar adaptações e prever vantagens e desvantagens resultantes de cada decisão.

O gestor, nesse caso, enfrenta alguns dilemas clássicos:

  • Desfazer uma equipe de talentos que demorou a ser treinada ou empenhar os minguados recursos restantes no pagamento dos salários?
  • Preservar o caixa da empresa ou continuar a investir naquele espetacular projeto de inovação?• Tentar sair da crise apostando no desenvolvimento de um produto diferenciado ou reduzir o mix e focar no que ainda é lucrativo?

Nessas grandes provas, são inúmeras as variáveis e cada decisão pode alterar todo o processo. Cada empreendedor-gestor soma suas intuições, crenças e habilidades e procura obter o melhor resultado possível.

Em geral, não existem manuais ou fórmulas prontas. Cada empresa depende das condicionantes de sua cultura interna, do perfil de seu mercado e das condições macroeconômicas vigentes.

Confesso que vi o mar enfurecer-se várias vezes. E nunca deixei que a natureza resolvesse sozinha o problema.

Foi, assim, por exemplo, nos primórdios de minha agência. Na maré baixa, usei a criatividade para encarar os mirabolantes planos econômicos governamentais. Na maré alta, aproveitei para investir em equipamentos, instalações e formação de pessoal.

Em meu caso, nenhum momento foi igual ao outro. Procurei ter calma, analisar os problemas e seguir em frente.

Se há um maremoto, espero passar e sigo em frente. Afinal, é o desafio que alimenta o espírito empreendedor.

Admito que sou um competidor. Assim, de cada queda, tirei uma lição. Dali, ergui-me para outro patamar. No caso da Rae,MP, o mar revolto já nos tirou gás, já nos roubou os anéis, mas nunca cogitamos do naufrágio.

Falo na primeira pessoa do plural porque, nessas horas, identifiquei pessoas valorosas, determinadas e comprometidas com nosso projeto.

A arte do timoneiro

Muitas vezes, enfrentamos situações que fogem ao controle, especialmente quando não contamos com um plano de contingência.

Nosso livre arbítrio não é, portanto, capaz de gerar uma solução. Sofremos perdas e nos afastamos da rota.

Vencer essas dificuldades requer de nós sapiência, equilíbrio, maturidade, responsabilidade e, por fim, muita ação. E, tenha certeza, o capitão empreendedor-gestor é que precisa animar os tripulantes.

Ele precisa ser realista, deve ouvir os argumentos dos parceiros e colaboradores e não pode se deixar contaminar pelo catastrofismo. Afinal, alguém sempre dirá que o mundo vai acabar e que não há esperança.

Se há uma crise, é momento de pensar e ponderar. Completar esse exercício durante o maremoto, com pessoas gritando e ondas inflamadas, proporciona-me uma sensação de PAZ e EQUILÍBRIO.

Costumo me apresentar a seguinte pergunta:- Marcelo, depois de se aventurar em tantos mares, você vai agora recuar à costa?

Olho para trás e repasso mentalmente as batalhas vencidas. Invariavelmente, a resposta é firme:- Não! Vou seguir viagem!

Essa postura se aplica aos outros papéis que desempenho nesta vida, como pai, tio, irmão, filho, amigo e cidadão.

Portanto, caro leitor, saiba que não existe calmaria eterna, tampouco tempestade que não cesse.

Se você está no porto ou no mar, que seja por sua livre escolha. Como capitão, busque sempre aqueles marinheiros que não fixam data de retorno.

Prefira os que não se acovardam diante das tormentas e que sabem desfrutar das calmarias de alto mar.

Quem a terra firme escolher só as histórias da imaginação poderá saborear.

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