Dia destes, passando pela sala de casa, observei meu filho ocupado com o FIFA 12, colorido, realista, com 56 estádios, nos quais atuam 22 ligas e 42 seleções nacionais.

De repente, revi-me naquela idade, também entusiasmado, mas diante de um bom e firme pebolim, de madeira e metal.

Naquelas pelejas, a ansiedade era grande e o corpo suava. Havia basicamente dois movimentos: deslizar a barra de um lado para o outro e girá-la no momento do chute.

Assim, a norma era esperar aquela bola tonta se aproximar do boneco estático e atirá-la para frente, sem muita direção.

Gritávamos gol quando a redonda despencava ruidosamente no caixote, atrás do goleiro adversário.

Na hora, procurei recordar o que se passava em minha cabeça durante aquelas disputas.

Primeiramente, para brincar, eu precisava me deslocar até um salão de jogo e tinha de encontrar um adversário, alguém disposto a manipular os bonecos adversários.

Meu filho, ao contrário, joga quando quiser e com quem quiser. Escolhe times, uniformes e pode até configurar fisicamente os atletas, definindo estatura, cor da pele e corte de cabelo.

Hoje, o praticante dessa modalidade de game eletrônico nem precisa de um amigo de carne e osso. O dedicado computador simula até o estilo de um Messi ou de um Rooney.

Analisando mais detalhadamente a contenda, percebi a enorme variedade de recursos disponíveis.

É possível trocar passes, fazer lançamentos, driblar e chutar a gol. Pode-se optar por uma formação ofensiva ou defensiva, com marcação cerrada.

Encantado, vi que não existe mais a bola boba, aquela que resolve estancar teimosamente entre dois bonecos.

Desapareceu também aquele vale tudo do velho jogo, no qual ignorávamos laterais e escanteios. Naquele modelo rústico, o que valia era o exercício constante dos viciados.

Você já leu vários parágrafos e deve estar se perguntando: será que o Marcelo virou um comentarista de games?

Com certeza, não. E faço já a transposição do tema para o ambiente das relações de trabalho. Hoje, nas empresas, coexistem equivalentes aos praticantes dos dois tipos de jogos.

Alguns profissionais ainda não largaram o “pebolim”. Mantêm-se à espera da bola, com um comportamento duro e previsível. Quando se movem, é linearmente, de um lado para o outro.

Esses atletas não correm atrás da bola e não a conduzem. Estáticos, esperam que ela os alcance. Ai, remetem-na para o outro lado, por impulso e instinto, sem zelo ou carinho.

Em palestras e reuniões executivas, tenho escutado demais o termo colaborativo. Mas, afinal, qual é a essência dessa postura?

Colaborar é “trabalhar junto”, é atuar em equipe, é cooperar com os parceiros, é lançar a bola para aquele que estiver mais bem colocado.

No mundo organizacional, o bom jogador pode ter habilidades extraordinárias. Pode ser um grande planejador, um técnico bem formado ou um vendedor persuasivo.

Para ser considerado um craque, no entanto, precisa ser versátil, polivalente, ajudar na defesa e no ataque, compreender as limitações de cada colega, solucionar problemas e, principalmente, entender que para ganhar o campeonato é preciso somar harmonicamente todos os valores individuais.

Colaborar é uma conduta nobre, adotada por pessoas íntegras, seguras e capazes de avaliar resultados, sejam eles positivos ou negativos.

Hoje, as empresas inovadoras e vencedoras são aquelas capazes de estabelecer processos colaborativos dinâmicos e permanentes, utilizando de forma especial as redes sociais e canais de comunicação interna.

O futebol eletrônico, por mais evoluído que seja, ainda tem suas limitações. Falta alguma ginga e espírito criativo aos jogadores virtuais.

No entanto, é capaz de inspirar atitudes colaborativas. Ele atesta a importância do movimento, da velocidade, do entrosamento e, sobretudo, do jogo coletivo.

Ainda valorizo o pebolim e não tenho nada contra os milhões de brasileiros que ainda o praticam país afora, em clubes, associações e bares.

Ele aqui é apenas uma referência do movimento restrito, do alcance reduzido e da disposição tática sem qualquer variação.

Se você quer empreender nestes novos tempos, marcados pela mudança, não se deixe espetar pela vara que condiciona e inibe os jogadores.

Mexa-se, alterne posições e tome iniciativas. Muitas vezes, depois de erguido o caneco, o jogador carregado nos ombros não é o mais habilidoso, mas aquele mais destemido, mais solidário e que sabe, em cada momento, atender à demanda da equipe.

Portanto, se você vai empreender, identifique cada um dos membros de sua equipe. Como gestor, informe, forme, eduque, estimule, gere autonomias e constitua compromissos.

No pebolim, no crepúsculo da partida, não havia o recurso de enviar o goleiro para área adversária, a fim de tentar o cabeceio. Agora, tudo é possível.

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