Quando jovem sempre senti muito frio na barriga, ora por não ter estudado o suficiente para a prova, ora por estar fazendo as coisas do meu jeito e me expondo a altos riscos.

Por anos pratiquei motocross, um esporte radical e que sempre me fascinou pela frequente exposição ao risco. Um esporte que sempre exigiu decisões velozes, controle de diversas atividades correlacionadas, além, é claro, de trazer o prazer da própria competição. Durante os treinos livres eu tentava andar na frente de muitos, alcançar outros e me posicionar de forma que ninguém pudesse me ultrapassar, sempre lutando para passar mais um à minha frente.

Esse objetivo de buscar um piloto que andasse mais rápido implicava cada vez mais risco, e minhas capacidades sempre eram colocadas à prova. Por isso, durante a semana, trabalhava muito o aeróbico, tentava tirar mais potência da motocicleta, mudava a calibragem de pneus e, principalmente, treinava nas mesmas pistas onde seriam as competições, vazias nesses momentos, e marcava minha evolução no cronômetro.

Hoje, à frente de minha empresa, as coisas não mudaram muito. Não aceito voltar à posição anterior: a cada nova conquista, existe sempre a enorme preocupação de não perder o lugar em que estou. Olho para trás a fim de ver quantos competidores já ultrapassei, e o tempo inteiro busco sair do lugar em que estou e alcançar uma nova posição.

Sempre observei os melhores pilotos, seja nas pistas, seja nos negócios, seja na vida. Admiro suas habilidades e suas conquistas. E, todos os dias, tento acelerar mais e fazer a pista num tempo mais rápido e preciso, mas lembrando das palavras de um treinador de motocross: “arrisque sempre, mas não mais do que a sua capacidade possa suportar, pois a linha entre superar seus limites sem cair e perder a corrida, e às vezes até um campeonato, é muito tênue”.

Praticar motocross sempre me colocava em posição de medo frequente. Lembro que muitas vezes a moto andava muito mais do que a minha capacidade de tocá-la, o coração subia à garganta, o medo tomava conta do meu corpo, mas sempre a coragem se mostrava mais forte. E foi com uma atitude corajosa que deixei o motocross, aos 40 anos, após um forte tombo, quando o risco começou a comprometer as grandes conquistas de minha vida: família, empresa e filho.

Convenci-me de que era hora de parar de correr com a máquina, embora algumas pessoas me dissessem para continuar em outro ritmo, mais devagar, só brincar… Só que desacelerar não faz parte do meu ímpeto, sou intenso em tudo o que faço, sou competitivo, gosto de superar limites, desafiar improbabilidades, enfim, gosto de sentir medo, o tal frio na barriga. Quando esses sentimentos não estão presentes, um sinal é imediatamente emitido: “estou parado, inerte, acomodado”.

Minha vida em cima das motocicletas me trouxe muitos aprendizados. Hoje vejo muitas pessoas se portar de maneira complicada diante dos medos que a vida lhes impõe, vejo pessoas tentando não sentir frio na barriga, pessoas correndo de desafios, fugindo delas mesmas.

Tentar transformar o medo em sinal de oportunidade pode ser um grande passo na busca das vitórias, na derrota dos adversários que, muitas vezes, estão somente dentro de nós mesmos.

Começar a enxergar o medo como um sentimento positivo, lutar e passar à frente dele traz uma sensação antecipada da vitória. E essa é uma das melhores coisas que podemos fazer para nossa autoestima, essa deve ser nossa grande busca. É muito bom ter esse sentimento!

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